Por que algumas pessoas usam álcool para tentar esquecer problemas

Imagem: pexels.com
Entenda o mecanismo que transforma a bebida em válvula de escape emocional e por que essa estratégia costuma agravar exatamente aquilo que a pessoa tenta evitar
A cena se repete em muitas casas brasileiras. Depois de um dia difícil, de uma discussão em família ou de uma notícia ruim no trabalho, a pessoa abre uma garrafa com a promessa silenciosa de que aquilo vai ajudar a “desligar a cabeça”.
O curioso é que, na maioria das vezes, o efeito buscado até aparece nos primeiros minutos. O problema é o que vem depois: a angústia retorna maior, o sono piora e a vontade de repetir a dose no dia seguinte cresce. O que parecia um alívio passageiro vai se transformando, aos poucos, em um ciclo do qual sair se torna mais difícil a cada semana.
Esse padrão tem nome na literatura científica. Pesquisadores chamam de “beber para lidar”, tradução do termo em inglês drinking to cope, o comportamento de recorrer ao álcool como forma de amortecer emoções desconfortáveis.
Diferente de quem bebe socialmente, em festas ou encontros, quem bebe para esquecer usa a substância como ferramenta emocional. E é justamente esse uso que os estudos apontam como o de maior risco para o desenvolvimento da dependência.
O que o álcool faz no cérebro nos primeiros goles
O álcool é um depressor do sistema nervoso central. Nos primeiros momentos após o consumo, ele reduz a atividade de áreas cerebrais ligadas ao autocontrole e à análise crítica, ao mesmo tempo em que estimula a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer e recompensa.
Na prática, isso significa que preocupações perdem intensidade, a autocrítica diminui e uma sensação momentânea de leveza toma o lugar do desconforto.
O cérebro, porém, registra essa experiência. Ele aprende que existe um atalho químico capaz de silenciar a dor emocional em questão de minutos, algo que nenhuma conversa, caminhada ou noite de sono consegue fazer com a mesma velocidade.
É esse aprendizado que torna o mecanismo tão traiçoeiro. Quanto mais vezes a pessoa recorre ao atalho, mais o cérebro passa a exigir esse caminho diante de qualquer frustração, e menos eficazes se tornam as formas naturais de regular as próprias emoções.
Há ainda um detalhe que costuma passar despercebido. Passado o efeito inicial, o organismo reage ao depressor com um estado de excitação compensatória. Por isso tanta gente que bebe à noite acorda de madrugada com o coração acelerado e pensamentos acelerados.
A ansiedade que a bebida parecia apagar volta amplificada, fenômeno que médicos e psicólogos conhecem bem e que alimenta a rodada seguinte de consumo.
A memória não apaga, apenas fica adiada
Existe uma expectativa comum de que o álcool ajude a “apagar” lembranças ruins. A neurociência mostra o contrário. A bebida prejudica a consolidação de memórias novas durante a embriaguez, mas não elimina as antigas.
O problema que motivou o consumo continua intacto na manhã seguinte, agora acompanhado de cansaço físico, culpa e, com frequência, novos conflitos gerados pelo próprio episódio de bebida.
Esse descompasso cria uma conta emocional que só aumenta. A pessoa bebe para fugir de um problema, o problema permanece, surgem problemas adicionais causados pela bebida, e a resposta aprendida para todo esse acúmulo é beber de novo.
Terapeutas descrevem esse movimento como uma dívida com juros: cada tentativa de adiar o sofrimento cobra um preço maior na parcela seguinte.
Os números por trás de um hábito silencioso
O Brasil convive com esse quadro em escala considerável. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o consumo médio de álcool no país é de 8,7 litros por pessoa ao ano, acima da média mundial de 6,2 litros.
A mesma entidade estima que 12,5% dos brasileiros participam de episódios de consumo pesado, taxa superior à média global, e que entre os brasileiros que bebem, cerca de um terço já reconheceu ter abusado da bebida em alguma ocasião.
As consequências aparecem nas estatísticas de mortalidade. Um estudo conduzido pela Fiocruz com base em dados da OMS estimou que 102,3 mil pessoas morreram no Brasil em 2019 por causas atribuíveis ao consumo de álcool, o equivalente a cerca de 12 mortes por hora.
Já o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool aponta que a cirrose hepática se tornou a principal causa de morte associada à bebida no país, ultrapassando os acidentes de trânsito.
Por trás desses números coletivos, há histórias individuais que quase sempre começam da mesma forma: um consumo que parecia inofensivo, motivado por estresse, luto, desemprego, fim de relacionamento ou solidão.
O componente emocional raramente aparece nas estatísticas, mas está presente na maior parte dos relatos de quem chega a um tratamento.
Quando a válvula de escape vira dependência
Nem toda pessoa que bebe após um dia ruim desenvolverá alcoolismo. A transição para a dependência costuma ser gradual e envolve sinais que a própria pessoa tende a minimizar.
Beber sozinho com frequência, esconder a quantidade consumida, sentir irritação quando alguém comenta o hábito, precisar de doses maiores para obter o mesmo efeito e fracassar em tentativas de reduzir o consumo estão entre os alertas mais citados por especialistas.
Médicos especializados de uma clínica de recuperação em Casa Branca – SP destacam que o uso emocional da bebida é um dos fatores que mais aceleram essa transição, porque o paciente não está buscando diversão, e sim anestesia.
Quando o álcool assume a função de único regulador do sofrimento, a pessoa perde progressivamente a capacidade de enfrentar frustrações sem a substância, e o corpo passa a cobrar a presença dela até em situações neutras do dia a dia.
Outro ponto observado por equipes de saúde é o papel do isolamento. Quem bebe para esquecer tende a se afastar de amigos e familiares, seja por vergonha, seja porque a convivência exige um estado de sobriedade que passou a incomodar.
O afastamento, por sua vez, remove justamente a rede de apoio que poderia ajudar a interromper o ciclo, deixando a bebida como única companhia constante.
O que funciona de verdade contra a dor emocional
Se o álcool não resolve o problema de origem, o que resolve? A resposta passa por enfrentar aquilo que a bebida ajudava a evitar, e isso raramente acontece sem apoio.
A psicoterapia, em especial a terapia cognitivo-comportamental, ensina o paciente a identificar os gatilhos emocionais que disparam a vontade de beber e a construir respostas alternativas para cada um deles.
Grupos de apoio mútuo, como os baseados no programa de 12 passos, oferecem algo que a bebida nunca entrega: a experiência de ser compreendido por quem viveu o mesmo.
Nos casos em que já existe dependência instalada, o tratamento pode exigir acompanhamento médico para lidar com a síndrome de abstinência, que em quadros graves oferece risco à vida e não deve ser enfrentada por conta própria.
O sistema público brasileiro conta com os Centros de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas, os CAPS-AD, que somavam 421 unidades no país até o fim de 2022, com atendimento gratuito.
Há também comunidades terapêuticas e clínicas particulares com internação voluntária, regulamentada pela Lei 10.216/2001, indicada quando o ambiente em que a pessoa vive dificulta a interrupção do consumo.
A escolha do formato depende da gravidade de cada caso, mas os profissionais da área convergem em um ponto: quanto mais cedo a pessoa reconhece que está bebendo para fugir de algo, maiores as chances de reverter o quadro antes que a dependência se consolide.
Como ajudar alguém preso nesse ciclo
Familiares e amigos costumam ser os primeiros a perceber o padrão, e também os primeiros a errar na tentativa de ajudar. Cobranças, ameaças e sermões em momentos de embriaguez tendem a reforçar a vergonha, e a vergonha é um dos combustíveis do consumo emocional.
Especialistas recomendam conversas em momentos de sobriedade, com foco no cuidado e não no julgamento, oferecendo companhia para buscar avaliação profissional em vez de exigir promessas de mudança.
Também ajuda entender que recaídas fazem parte do processo de recuperação e não significam fracasso definitivo. A dependência de álcool é reconhecida como doença crônica pela OMS, e como toda doença crônica, exige tratamento continuado, paciência e ajustes ao longo do caminho.
No fim das contas, a pergunta que dá título a esta matéria tem uma resposta simples e outra difícil. A simples: as pessoas usam álcool para esquecer problemas porque, por alguns minutos, funciona.
A difícil: aceitar que esses minutos custam caro demais, e que a saída real passa por encarar o que dói, de preferência com ajuda de quem sabe conduzir esse enfrentamento.
Quem já atravessou o ciclo costuma resumir a experiência em uma frase que vale como conclusão: a bebida nunca apagou um problema, apenas adiou a data em que ele precisou ser resolvido.

